Chove forte e bate o medo: saiba o que é a ecoansiedade

Com o aumento na frequência e intensidade dos eventos climáticos, como furacões, enchentes e secas extremas, a preocupação com o futuro do planeta tem se tornado cada vez mais comum entre as pessoas, especialmente aqueles que já sofreram com desastres. O sentimento possui um nome e causa: ecoansiedade. Conforme um estudo da revista The Lancet Planetary Health, 75% dos jovens consideram o futuro “assustador”.

A ansiedade climática, outro nome também conhecido, é um fenômeno crescente que reflete o medo do futuro e a preocupação com as mudanças no ambiente numa época conhecida pelos especialistas como Antropoceno. O termo responsabiliza a ação humana, visto que nomeia uma era geológica diretamente influenciada pela atividade do homem.

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‘’O Antropoceno nada mais é do que a nova era geológica, que marca o intenso impacto do ser humano na Terra. A Terra vem sofrendo modificações e ela sempre sofreu, mas essas modificações sempre foram de característica natural, até a vinda do ser humano”, explica a meteorologista pela Universidade de São Paulo (USP), Camila Visibelli.

A era é marcada pela agricultura e modificação das vegetações. 

Aspas da citação

O que acontece é que: com o intenso aumento da população e a necessidade de urbanização e de uma agricultura intensiva, o ser humano, com a utilização dos combustíveis fósseis, vemos o agravamento de questões como o efeito estufa, que é um fenômeno natural da Terra, mas que vem sendo cada vez mais potencializado pela deposição de gases que retêm o calor


Camila Visibelli,
meteorologista no Tempo OK

Aspas da citação

Como um sintoma, a sociedade que vive nesta era geológica pode manifestar uma intensa preocupação. De acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), 57% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos enfrentam altos níveis de estresse climático.

Para aqueles que cresceram assistindo filmes-catástrofes como 2012 e Armaggedon, a possibilidade de colapso mundial parecia um cenário tardio, o que não corresponde com as condições do presente. É o que diz a estudante Ana Carolina Fernandes Machado, de 24 anos.

‘’Antigamente a gente falava sobre questões climáticas, sobre aquecimento global, e era uma coisa muito longe pra gente. Hoje em dia é uma coisa muito perceptível, a gente vê que está calor demais, a gente vê que chove, e quando chove também sai levando tudo, a gente fica sem luz, as ruas ficam alagadas’’, afirma.

Tragédia no Morro do Bumba, em Niterói


Tragédia no Morro do Bumba, em Niterói


|  Foto:
Agência Brasil

Vítimas diretas

Aos 9 anos, Ana Carolina e sua família viveram a tragédia do Morro do Bumba, em Niterói. Na ocasião, em 2010, um deslizamento de terra causado pelas fortes chuvas deixou quase 50 mortos e mais de 200 famílias desabrigadas. Na época, a jovem estava acompanhada pela mãe e quatro irmãos, em sua cidade natal, Três Rios, no Centro-Sul Fluminense, e perderam a casa em que viviam.

‘’A gente estava passando um fim de semana em Três Rios, e ficamos lá alguns dias. Quando ficamos sabendo da notícia, foi uma coisa muito impactante para a gente, porque assim, era o lugar onde eu estava sendo criada, era o lugar onde eu morava, era o lugar onde a minha família conquistou para ter as coisas. Foi muito difícil.’’

Além do sentimento de perda material e financeira, a família também teve que enfrentar a necessidade de recomeçar.

‘’Foi muito difícil, tanto para mim quanto para os meus irmãos também, que já estavam aqui, matriculados em escolas, em alguns projetos sociais também. E a gente teve que voltar tudo de novo para viver no aluguel’’, lembrou a estudante.

Atualmente moradora de São Domingos, ela conta dos reflexos que ficaram após a tragédia.

‘’O meu maior medo é esse, do que eu já vivi. Ficar sem casa então, é uma coisa que eu estou sempre com medo. E assim, é uma coisa que aconteceu há quase 15 anos, mas eu não consigo apagar da minha cabeça’’, desabafa.

Segundo a psicóloga humanista e pesquisadora da ecopsicologia Rayane Rocha, diante de catástrofes ambientais e da destruição gradual das condições de vida, a ansiedade pode se manifestar na forma da ecoansiedade.


Esse tipo de ansiedade aponta para a dor e preocupação sentida em relação a perda de florestas, animais, da biodiversidade, dos padrões de chuva, da relativa estabilidade climática, das queimadas, dos desastres ambientais, ondas de calor e seca extrema, da falta de mobilizações políticas e sociais e pela falta de perspectiva de um futuro possível

Luto ecológico e perda de identidade

A experiência de viver desastres ambientais pode provocar outro sentimento: o luto ecológico.

“O luto é uma resposta humana natural a essa perda significativa de uma paisagem, de pessoas, animais, de um lugar familiar e que até então era seguro e confiável, dos bens adquiridos, de toda uma estrutura e uma vida que se rompe e se desfaz”, conta a psicóloga Rayane Rocha.

Tragédia em Petrópolis deixou 217 mortos


Tragédia em Petrópolis deixou 217 mortos


|  Foto:
Fernando Frazão/Agência Brasil

Bernardo Ribeiro, estudante de psicologia de 22 anos, viveu de perto a tragédia de Petrópolis, em 2022, quando fortes chuvas causaram deslizamentos e inundações na cidade. Ele conta que viu sua rua virar “um rio”.

Aspas da citação

Eu estava na minha casa no dia da tragédia. Eu morava de frente para rua que não tinha risco de alagamento em Petrópolis, e eu vi minha rua ser tomada pela água, foi muito bizarro. Vi tudo encher e como moro no alto, vi tudo de cima: carro sendo levado, foi muito doido


Bernardo Ribeiro,
morador de Petrópolis

Aspas da citação

O estudante ficou por meses após a tragédia em estado de hipervigilância. Em dias de chuva, ele rapidamente voltava para casa, com medo de que o episódio traumático se repetisse.

‘’A cidade ficou tão destruída. O Centro ficou tão destruído que você nem tinha vontade de sair para rua porque estava tudo diferente. O Centro Histórico de Petrópolis foi muito destruído, eu saia pelas ruas, caminhava por lugares que eu vivi muitos anos importantes da minha vida e construí memórias, e foi como se tudo aquilo tivesse sido destruído, sabe?!. Não foi só o lugar físico, mas também a memória afetiva que estava vinculada àquilo’’, resgata.

A psicóloga humanista e pesquisadora da ecopsicologia Rayane Rocha destaca que, no caso de vítimas de tragédias climáticas, o sentimento pode se manifestar como solastalgia — um conceito cunhado pelo filósofo Glen Albrecht para descrever a angústia causada por mudanças negativas no ambiente local.

“O conceito é definido pelo filósofo Glen Albrecht como uma angústia psicológica causada por mudanças negativas no ambiente local, seja decorrentes das atividades humanas ou do clima, resultando em um sentimento de estranhamento, deslocamento e perda de identidade”, pondera.

Padrões climáticos afetados 

Segundo a meteorologista pela Universidade de São Paulo (USP), Camila Visibelli, as mudanças climáticas estão alterando padrões climáticos de forma drástica. “O aquecimento do Oceano Atlântico, por exemplo, intensifica furacões nos EUA e secas no Brasil. Tudo está interligado”, explica.

O curso dos rios e os padrões de clima estão sendo modificados de forma não natural, diz a meteorologista


O curso dos rios e os padrões de clima estão sendo modificados de forma não natural, diz a meteorologista


|  Foto:
Lucas Alvarenga

A especialista ainda destaca que os impactos são sentidos de forma desigual, com comunidades marginalizadas sendo as mais afetadas. 

Aspas da citação

Populações de baixa renda têm menos recursos para lidar com eventos extremos, como ondas de calor ou enchentes, o que agrava ainda mais o estresse físico e emocional


Camila Visibelli,
meteorologista

Aspas da citação

Como atua a ecopsicologia? 

A ecoansiedade, portanto, não é uma preocupação individual, mas se revela como um reflexo coletivo de um planeta em transformação. Para a psicóloga Rayane Rocha, a solução passa por reconhecer a interligação entre saúde humana e saúde do planeta.

“A Ecopsicologia propõe justamente isso: restaurar a relação de reciprocidade com a Terra e buscar práticas que promovam o bem-estar tanto das pessoas quanto do ambiente em que vivem”, acrescenta.

Já o tratamento, ocorre através da ecopsicologia, um campo novo que está começando a ser conhecido e que trata das ecoemoções. Conforme a especialista, a tendência é que a questão ganhe força. 

”Podemos pensar que essa será uma das maiores questões que aparecerão na clínica daqui há alguns anos. Portanto, é inquestionável que estamos todos vivendo um processo existencial importante que questiona o nosso modo de vida”, conclui a estudiosa.

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