Opinião: “E o capitão virou cabo eleitoral”

Texto de Nuno Vasconcellos:

 

“Não perca tempo imaginando que Jair Bolsonaro (PL-RJ) se livrará das acusações e disputará as eleições de 2026 – como o próprio ex-presidente insiste em dizer que acontecerá.

Considere que, desde junho de 2023, quando a Justiça Eleitoral o tornou inelegível por ter reunido embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada e posto em dúvida a lisura das eleições no Brasil, ele já é peça fora do tabuleiro eleitoral de 2026.

Do ponto de vista jurídico, a situação, que já era ruim para Bolsonaro, ficou ainda pior na semana passada, depois que a primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF) acatou as denúncias contra ele pelos atos do dia 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro agora é réu, mas vem sendo tratado por muita gente, inclusive por uma parte importante da imprensa, como se já estivesse condenado.

Talvez esteja mesmo. Tudo parece conspirar contra ele. O paradoxal, porém, é que Bolsonaro até pode — e certamente será — ser impedido pela Justiça de disputar eleições. Mas isso, ao invés de enfraquecê-lo e de condená-lo ao esquecimento, parece aumentar sua força política.

É preciso, de qualquer forma, esperar pelo desenrolar dos fatos para saber como Bolsonaro investirá o capital político que parece aumentar na medida em que sua situação se complica.

Sim! Da mesma forma que aconteceu com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2028, o processo contra Bolsonaro, ao invés de desanimar, parece aumentar a disposição de seus apoiadores. E, quanto mais os adversários insistem em tirá-lo do jogo, mais os aliados o puxam de volta para a cena.

A primeira pergunta é: como alguém que perdeu o direito de disputar eleições, que tem sido alvo de um processo atrás do outro e que, pelo andar da carruagem, corre o risco de ir parar na prisão pode estar mais forte do que antes?

Para começo de conversa, os aliados de Bolsonaro consideram o tratamento que a Justiça vem dando a ele não como uma punição por falhas que ele porventura tenha cometido. Para eles, tudo não passa de perseguição. Tudo se resume a um conjunto de injustiças praticadas pelos que desejam eliminar qualquer possibilidade de que ele volte ao Palácio do Planalto.

A reação dos bolsonaristas neste episódio, convém repetir, é idêntica à dos seguidores de Lula no calor da Operação Lava Jato. Não interessa o que os outros dizem. O que vale é aquilo em que eles acreditam.

Nesse ambiente, cada declaração de voto dos ministros no julgamento da quarta-feira passada foi recebida pelos apoiadores mais fiéis de Bolsonaro não como argumentos que demonstrassem a responsabilidade do ex-presidente pelos atos de que está sendo acusado. Para eles, cada decisão da Justiça contra ele nada mais é do que a confirmação de que o ex-presidente está sendo vítima de adversários que não medirão esforços para alijá-lo do jogo…”

 

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