Juniper: projeto ambicioso quer capturar gás carbônico do ar e transformar em concreto

Las Vegas, conhecida por seus cassinos e luzes neon, agora também abriga um projeto de inovação climática. Em um parque industrial ao norte da cidade, uma startup liderada por um ex-engenheiro da SpaceX está desenvolvendo uma planta que captura dióxido de carbono direto da atmosfera e o transforma em concreto sustentável — enquanto gera água limpa como subproduto.

O projeto se chama Juniper e pretende criar uma revolução silenciosa, mas poderosa, no setor da construção civil.

Tecnologia integrada e ciclo fechado: o diferencial do Projeto Juniper

O grande trunfo da Clairity Tech está na integração de duas etapas críticas em um único sistema: captura e armazenamento do carbono.

Em vez de apenas remover o CO₂ do ar e injetá-lo em reservatórios subterrâneos — prática ainda cara e pouco difundida nos EUA —, a startup o utiliza para criar estruturas concretas de baixo impacto ambiental. E tudo isso acontece no mesmo local, de forma eficiente e automatizada.

Nós conseguimos entregar créditos reais de remoção de carbono já hoje — e não de projetos futuros incertos

Glen Meyerowitz, fundador da Clairity e ex-funcionário da SpaceX

Como funciona a tecnologia da Clairity Tech?

O processo transforma o ar em uma solução climática real limpa, acessível e durável através de alta tecnologia. Veja como funciona:

1. Captura direta do ar com sais carbonatos

É utilizada uma tecnologia baseada em sorbentes sólidos: estruturas em forma de colmeia são revestidas com sais carbonatos, compostos abundantes e de baixo custo. Quando o ar passa por esses materiais, o CO₂ reage quimicamente e se fixa de forma segura na estrutura dos sais.

Diferente de métodos tradicionais, nossa abordagem não busca CO₂ puro — buscamos eficiência e escala

Glen Meyerowitz, fundador da Clairity e ex-funcionário da SpaceX

Divulgação/Clairity Tech

2. Concentração e liberação

Após capturar o CO₂, aquece-se suavemente os sais para liberar o gás de forma controlada e eficiente. O processo consome menos energia do que métodos convencionais e permite reutilizar o sorvente em inúmeros ciclos sem perda de desempenho.

3. Sequestro durável

O CO₂ capturado pode então ser:

  • Incorporado ao concreto, tornando-o mais resistente e sustentável
  • Transformado em rochas através de mineralização
  • Aplicado em produtos como combustíveis limpos
  • Ou até mesmo enviado ao oceano de maneira segura

Todas essas rotas permitem que o carbono permaneça fora da atmosfera por milhares de anos.

Divulgação/Clairity Tech

4. Escalabilidade inteligente

Os reatores não precisam de megainfraestruturas. São utilizadas materiais simples e equipamentos comuns, o que permite uma expansão rápida e econômica. Com isso, visamos atingir escala de gigatoneladas de remoção de carbono — exatamente o que o planeta precisa agora.

5. Medição e transparência

Cada tonelada de CO₂ removida é monitorada em tempo real com sistemas de medição integrados, garantindo verificação precisa e confiável.

CO₂ do ar vira concreto mais resistente e com pegada negativa

A mágica começa com um material sorvente, da mesma família do bicarbonato de sódio. Ele atrai o CO₂ do ar de maneira eficaz e pode ser reutilizado diversas vezes sem se degradar.

Após o processo, o carbono é transformado em carbonato e incorporado ao concreto, tornando-o mais forte e com pegada de carbono negativa — ou seja, em vez de emitir, o material ajuda a remover poluentes da atmosfera.

Tal método é extremamente relevante, considerando que a construção civil é responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂.

Divulgação/Clairity Tech

Operação solar e produção intermitente: custo menor e energia limpa

As instalações da Clairity não dependem de operação contínua. Elas foram desenhadas para funcionar com energia solar intermitente, aproveitando horários de menor custo energético.

Isso representa uma mudança de paradigma em relação às usinas tradicionais, e coloca a empresa em disputa direta com data centers que também buscam fontes renováveis.

Divulgação/Clairity Tech

Além disso, o reator da empresa produz água potável ao aquecer o material sorvente. Essa água é coletada e armazenada — um bônus valioso em uma cidade como Las Vegas, que enfrenta escassez hídrica.

Escala experimental, mas metas ambiciosas

Por enquanto, o Projeto Juniper captura cerca de 100 toneladas de CO₂ por ano — um número modesto frente às mais de 40 bilhões de toneladas emitidas globalmente em 2023. O custo atual é alto: cerca de US$ 700 por tonelada, valor que só se sustenta graças a créditos fiscais federais, apoiados inclusive por republicanos no Congresso.

Divulgação/Clairity Tech

Ainda assim, a Clairity planeja uma expansão exponencial. A meta para os próximos dez anos é remover 10 megatoneladas de carbono da atmosfera, um aumento de 100 mil vezes em relação ao que o projeto inicial alcança hoje.

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Las Vegas: clima seco, sol abundante e cenário ideal para inovação

Nevada foi escolhida por oferecer as condições ideais para a tecnologia da Clairity. O clima árido favorece o desempenho do sorvente utilizado, diferente de outras tecnologias que se adaptam melhor à umidade.

Além disso, há abundância de energia solar e grande disponibilidade de terrenos não agrícolas — tornando o estado uma plataforma ideal para crescimento.

Enquanto outras empresas apostam em armazenar carbono no subsolo, a Clairity está mostrando que é possível transformar resíduos e poluentes em infraestrutura resiliente e com impacto ambiental positivo.

A longo prazo, essa abordagem pode reconfigurar o setor de materiais de construção e se tornar um modelo viável de remoção de carbono em larga escala.

Fonte: Clairity Tech e Fast Company

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